Por mais que a técnica narrativa nos
possibilite narrar em terceira pessoa, o “Eu” sempre está presente. Eu, aquele
que escreve esse mundo que nasce do branco e não acaba no ponto final. Na
verdade o ponto final é só o começo. O que vou lhes contar também nasceu do
branco da folha de papel, mas se misturou com o preto da noite e aí... Não se
sabe o que pode acontecer. A história ainda não tem começo, pois é um embrião
na mente semi-fecunda deste que vos fala. No entanto, o início do que não se
criou pode ser o meio ou fim. E eis que meio, que também pode começar a nossa
história, é uma noite como esta. Uma noite entre o branco e preto, na folha, no
céu, na camisa... Camisa que guarda um torcedor, que o nome ainda não se sabe.
Ao menos o leitor amigo ainda não sabe, nem vai saber. Talvez o que foi dito
nas primeiras linhas auxilie aos que precisarem de uma imagem daquele que
protagoniza este fado. Acaso que já se prolonga de mais, antes mesmo do
“princípio”. Contudo, não há mal que não se possa consertar. Voltemos à
narrativa. Talvez fosse sonho. Não se sabe ainda, pois o narrador ainda escreve
seu prelúdio. Ele que, vontade própria ou egocentrismo involuntariamente aponta
seu arco e flecha para o espelho e fala de si como de outrem. No entanto há
mais o que contar. Há a história desse tal que anda por aí com a camisa do
Corinthians, o torcedor. Desligou a TV e olhou ao seu redor tudo que guardava o
escudo com remos e âncora. Fechou os olhos, e assim como os milhões de outros
fanáticos, naquele momento, agradeceu. Com os olhos úmidos, fez sua prece
habitual e adormeceu. Porém no último instante antes de pegar no sono, teve um
daqueles pensamentos, que feito passarinho perdido passa voando pela sala. E se
eles soubessem como é bom ser corintiano? Um país inteiro em preto e branco...
O sono é como um sequestrador que te leva com um capuz negro para onde não há
literatura capaz de narrar o que se passa. Ele é o maior dos poetas, escreve
sonhos e sonhos não cabem na razão. É como torcer pelo Corinthians. A razão não
consegue explicar. E o dia amanheceu e ele nem notou. Acordou, ou não. Às
vezes a vida acontece na nossa frente, mas os olhos cansados de sonho ou de
realidade não nos deixa enxergar. Escovou o dente pela primeira vez, comeu o
que tinha e foi logo ver o que a TV trazia sobre o jogo do noite anterior. Por
coincidência, o jornal local que guardava apenas três minutos de sua duração
total para falar sobre o futebol do resto do país, noticiava aquele gol aos 43
do segundo tempo. Aquele gol que fez nosso protagonista fechar os olhos e
agradecer. Saiu de casa, desceu a ladeira e, como de costume, apertou o play.
Johnny Cash cantava Folsom Prison enquanto as casas passavam pelo feito um trem
pelo canto do olho. Em poucos segundos estava na avenida. Muitos carros, gente
e movimento. Mas algo chamou sua atenção. Algo que nunca havia visto antes.
Dezenas de pessoas vestidas com o mesmo uniforme. Aquela mesma camisa com o
escudo de remos e âncora, a camisa do Corinthians. O que é isso? Não sabia que
tinha tanto corintiano aqui! Continuou seu caminho olhando de um lado para o
outro, procurando uma explicação para o que acabara de presenciar. Ele não
sabia, mas naquele momento, em todas as cidades do Brasil, hoje havia somente
uma torcida: a do Corinthians. E aí? Viu o jogo ontem? Nosso timão conseguiu um
ótimo resultado, não foi? Sem entender o que se passava, nosso amigo calou-se.
Do que esse cara tá falando? Ele é o maior anticorinthians que eu conheço. Só
pode estar de piada... Mas não era piada. Todo o sentimento de repulsa pelo
Corinthians havia se convertido em Corinthianismo. Tal situação se repetiu
durante o dia todo. A toda hora um tapinha nas costas e Vai Corinthians! O
tempo passa... E como de praxe nas narrativas, não deixa muita explicação. Um
mês se passou desde o dia “conversão”. Ele já não assistia jornal. Jornalistas
esportivos fingiam ser imparciais. Mas ele sabia... Todos agora eram
corintianos. Não discutiu nada pela interntet, não havia mais aquelas piadas,
que se tornavam mais intensas e frequentes em dias de jogos importantes. O
tempo passou outra vez e então chegou o dia da grande final... Nosso torcedor,
o principal, aquele que principiou esta história, já não se preocupava. Não
entendeu, mas agradou-se de ver seus amigos, sua família, sua namora e o resto
do país vestindo a mesma camisa que ele amava tanto. Quando o juiz apitou o fim
do jogo, depois de três bolas na trave, uma no gol do adversário e as outras
duas na baliza corintiana, o placar mostra Corinthians1X0Boca. Um sonho acabara
de se tornar realidade. Um sonho de libertadores. E uma nação inteira
comemorando. “O clube mais brasileiro” nunca foi tão verdadeiro. E o tempo se
apresenta mais uma vez: um ano. Nosso amigo já não torce mais. Não é
necessário. Com a torcida absoluta, os outros clubes praticamente já não tem
faturamento. Jogadores são formados, mas todos querem jogar no Corinthians. Que
agora se chama King Futebol Club. Instaurou-se um império em preto e branco e
dourado. Juntamente com o novo nome, introduziu uma nova cor. O espírito de
torcedor do nosso protagonista, que se alimentava daquela mística do sofredor,
da loucura de torcer por um time de vitórias e fracassos gloriosos,
adormeceu... Lembrou se da rivalidade que havia entre o seu antigo Corinthians
e um time de uniforme verde. Pesquisou na internet sobre a tal esquadra.
Descobriu que ainda existia o tal Palmeiras. Tratava-se de mais um clube
formado por jogares desconhecidos, mas que sabia exatamente o que queriam:
jogar no King. Não havia mais Corinthians. Nosso torcedor, cansado de um mundo
de apenas três cores, triste por não haver mais um adversário que lhe desse o
prazer duvidoso e doloroso de perder um campeonato, um jogo ou qualquer coisa
que se possa perder, começou cantar: “Quando surge o alviverde imponente
(...)”, Sentiu seus músculos contraindo, sua mão foi se abrindo e tocou seus
olhos. Nesse instante o sol se aproximou, e a potência de trilhões de megatons
de energia queimou tudo que há na terra dos sonhos. Meu Deus! Que pesadelo. Vai
Corinthians!
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